sexta-feira, 22 de junho de 2012

Pintos tecendo a manhã: literatura periférica em construção


O instante: transcorridos dezesseis dias do sexto mês do corrente ano depois de morto o cristo. Intitulado Piquenique de Argumentos, um pequeno encontro no meio da tarde, a reunião foi uma sobremesa poética servida no banquete maior: VI Festival das Artes do Subúrbio Ferroviário - Caldeirão Cultural, que ocorreu entre os dias 06 e 17 de junho na cidade de Salvador.  
Os participantes: Jocevaldo Santiago, Adelmir Chabi, Pachara, Gabriel, Evanilson Alves, Sandro Sussuarana, Robson Veio, Jocelia Fonseca, Franci Sousa, Leandro Mota e Uilians Souza e os Coletivos artísticos: Sextas Poéticas, Sarau da Onça, Ágape e Guetto A.
Poderia, pelo que a coisa suscita dos escombros pretéritos, ser espécie de repeteco deslocado, o deguste literário com chá e biscoito fino servido aos que outrora desfilavam nos salões. Mas, não era de uma pretensa literatura, melhor, as vozes que lá estiveram não se rogavam talento nobre nacional, não eram profissionais das palavras, desses que assaltam os meios e se encravam nos livros como sinônimos de qualidade maior.
Não era isso, e para que tal marcação diferencial cumpra aqui a sua função, uma menção, a voz do poeta José Carlos Limeira entoada em versos: “minha poesia não se presta ao chá das cinco na academia”. Se o que sai da boca do outro pode ser algo nosso por identificação, o canto lírico do poeta se fez canto coletivo para retratar uma intenção única naquela tarde. Tarde de poetas e poetisas, tarde de poema e de literatura, tarde que mais parecia uma metáfora velha, o amanhecer.
Agora, sabe-se, longe de ser uma tarde de literatos que desfilam em trajes que antecedem o poema, os poetas estavam reunidos em um grande círculo, face a face, mirando os olhos do outro, nutriam a sinceridade da cumplicidade. Entretanto, o teor da conversa não era secreta, não se constituía espécie de conchavo entre pares que se reúnem para definir o destino das verbas do fundo estadual de cultura.
Por outro lado, aquém da manutenção de privilégios, os ecos não eram de protestos. Se havia alguma bandeira, ficaram todas do lado de fora, guardadas dentro dos sapatos de quem as levaram. Não pensem, porém, em fantasias de uma casta pura, tipo poetas somente a serviço da literatura. Argumentos idealistas dessa natureza possuem validade vencida.
O piquenique apenas queria falar de nós, refletir a respeito do próprio fazer, com linguagem despojada de firulas linguísticas ou formato formal. Nessa tarde inédita, a proficiência poética, o talento e a vaidades de cada um ficaram recolhidas em nome da exposição do fazer, das influências, dos desejos e das dificuldades. Quem são essas poetisas e poetas? Através do nosso olhar não são estranhos, nem exóticos, tampouco isso ou aquilo. Mas como muitos outros, os indivíduos que lá estavam, por erro de algum universo, escreviam por uma necessidade de escrever. Esse era o princípio comum, ordinário a qualquer um escritor. O depois disso são frescuras sociais, brincadeiras simbólicas de manutenção de poder.
Para além de todas as bobagens e importâncias teóricas e críticas, numa tarde de sábado, tudo isso foi esquecido. Com esteiras e panos estampados forrados no chão, cada um abriu sua cesta de merenda, expôs os vetores da própria poética e compartilhou a coisa boa de ser poeta sem classificação. Depois de tudo, quando cada qual tomou o seu rumo, caminharam para as comunidades, favelas e periferias da cidade de Salvador. Isso foi mágico, foi tudo!

Jocevaldo Santiago
18-06-201

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